quinta-feira, novembro 25, 2010

Entre dois mundos

Todos nós experimentamos sensações que nem sempre nos agradam. Uma delas é aquela de estar em algum lugar sem se sentir parte dele. Esta sensação do “não-pertencimento” pode provocar algumas emoções difíceis de serem administradas. Já morei em alguns locais sem sentir nenhum prazer por estar ali. Lembro-me bem de andar pelas ruas de uma cidade em que morei recentemente e ser surpreendido por este pensamento: “o que estou fazendo neste lugar? Não me sinto um cidadão desta cidade”. Não há nada que deponha contra a referida cidade, mas eu não me sentia parte dela. Quando esta é a realidade de uma pessoa, suas perspectivas em relação ao lugar são reduzidas a um nível muito baixo. Não há sonho de “fincar raízes” no local.

Esta experiência no mundo material pode ser sentida também na realidade do mundo espiritual. A Bíblia afirma que aqueles que foram atraídos por Jesus Cristo são transformados em cidadãos do Reino de Deus. Ou seja, sua cidadania é celeste, a despeito de viverem na terra.

Muitos conflitos são provenientes desta realidade. Como cidadãos do Reino de Deus, os discípulos de Jesus não sonham em “fincar suas raízes” neste mundo, apesar de entenderem muito bem que sua permanência aqui tem uma função, uma missão, que está diretamente ligada com a manifestação da glória, da bondade, do amor e do poder do Senhor Deus. Mesmo sabendo que há uma nova morada à sua espera, eles precisam esperar pelo tempo em que Deus os chamará e o Senhor Jesus os conduzirá às moradas eternas.

Mas, enquanto não chega este tempo, como viver do lado de cá? Como se relacionar com este outro mundo que não os admira, nem os respeita? Qual a postura a ser adotada? Há algo especial que deve ser considerado para que esta relação, que é inevitável, seja conduzida com sabedoria pelos discípulos de Cristo? Primeiramente, é imprescindível a estes discípulos o entendimento de que estão entre dois mundos. Alguns confundem esta realidade com a possibilidade de usar a estratégia da ‘política da boa vizinhança’. Imaginam que podem viajar com um pé neste mundo e o outro no mundo dalém. Estar entre estes dois mundos não implica em ser amigo dos dois, submeter-se aos seus dois reis, seguir igualmente os padrões dos dois. Por isso é muito importante a convicção no que diz respeito ao pertencimento. Os discípulos de Cristo “pertencem” ao Reino de Deus, porém “estão” neste reino terreno. O problema de muitos deles é não conseguirem conviver com esta tensão.

A Bíblia nos apresenta uma história de alguém que entendeu muito bem esta realidade e que pode nos dar uma “luz” sobre este assunto. No livro de Gênesis está registrada a história de Jacó (Gn. 25 a 50), um homem que aprendeu a viver entre estes dois mundos. Ele era gêmeo de Esaú, filho de Isaque e Rebeca, neto de Abraão e Sara. Apesar de ter nascido “depois”, antes do nascimento uma palavra de Deus foi enviada à sua mãe dizendo que o mais velho serviria ao mais novo. O “ninho” no qual foi criado tinha tudo para fazer dele uma pessoa diferente. Entretanto, ele quis apressar o curso da história. Não desejou caminhar no compasso do Mestre. Desconsiderou o fato de que apressar o passo com a intenção de superá-lo não é sábio. Até então demonstrava ignorância quanto à realidade dos dois mundos. Suas atitudes demonstravam que ele estava sendo guiado pelas práticas do reino deste mundo visível. Enganou o irmão e o pai para “roubar” algo que já era seu. Por isso, teve que fugir do irmão de maneira apressada e atabalhoada. Na viagem, sentiu o desconforto provocado pelo abandono, resultado de ações egoístas e avarentas. Cansado, entristecido, desanimado e, certamente, com medo, adormeceu e sonhou. No sonho Deus lhe concedeu uma revelação espetacular acerca da realidade dos dois mundos. No sonho Jacó viu uma escada que ligava estes mundos. Por ela anjos desciam e subiam.

A revelação da realidade de viver entre dois mundos e a existência de uma única ligação entre eles que não compromete os cidadãos do Reino de Deus fez de Jacó outra pessoa. O que veio pela frente foi enfrentado por outra perspectiva. Levar vantagem não era mais a sua prioridade. Desistiu de usar o artifício do ludíbrio e da enganação para prevalecer sobre os outros. Sabedor da ligação entre estes dois mundos, Jacó passou a considerar e valorizar mais as coisas do coração. Investiu quatorze anos de sua vida por uma mulher a quem amava profundamente. A história nos conta como o enganador foi enganado, e o ludibriador foi ludibriado. Mas isso já não era o mais importante para ele, que tinha visto a “escada”. De certa forma Jacó já tinha passado por ela e entendia que seu mundo não era aquele em que estava vivendo, e sim o que está além da “escada”. Isto fez muita diferença em sua vida.

Ignorar a existência destes dois mundos não resolve a vida de ninguém. Para alguém vencer a tensão que existe nesta área, é importante o conhecimento da existência da “escada” que existe entre os dois mundos. Todavia é vital a convicção de que por esta escada ele pode passar e é por ela que aqueles que “trabalham” ao seu favor também passam.

Viver do lado de cá da escada gera aquela sensação do não-pertencimento. Contudo isso não conduz a uma sensação de abandono. A visão que Deus deu a Jacó naquele sonho era, de certa forma, um prenúncio de que o Rei do Reino-do-lado-de-lá-da-escada, com todo seu poder invadiria o reino-do-lado-de-cá-da-escada derrotando seu governante em seu próprio território. Sempre que os discípulos de Cristo olham para a cruz têm a certeza de que, mesmo estando vivendo entre dois mundos, são súditos do Rei vencedor, o Senhor Jesus. O Rei do Reino-do-lado-de-lá-da-escada tem toda autoridade sobre o reino-do-lado-de-cá-da-escada. Viver no meio desta tensão de “estar” sem “pertencer” é uma bênção não entendida e não desejada por aqueles que nunca viram a "escada" - essa ligação céu-terra-céu.
Gidiel Câmara



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